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Marta deixou tudo para acudir às vítimas do Haiti

A notícia de que a Marta estava a caminho do Haiti, para dar o seu contributo no caos humano trazido por um sismo de devastação de que não há memória no país, e que me foi dada pela própria no dia antes da partida, não me surpreendeu. Não me surpreendeu por ter o prazer de a ter como, além de amiga, uma das minhas grandes pessoas e por ser conhecedora, na primeira pessoa, da sua coragem, da sua persistência e dos seus valores morais. Há quase três anos a Marta partiu para longe, longe demais daqueles que a amam, para a República Dominicana, em busca de um objectivo que Portugal não lhe concedeu, estudar medicina. Perfeitamente integrada na realidade de uma região de terceiro mundo e conhecedora do seu papel e de uma responsabilidade acrescida pelo facto de ser aspirante a médica, não hesitou em integrar o grupo que a sua universidade enviou para Jimani, cidade fronteiriça com o Haiti, para libertar ainda que por escassos dias um pouco da dor de um povo devastado.

Uma conversa com o reitor da universidade sobre o contributo que poderiam dar para minimizar a onda de devastação que se abateu sobre o Haiti, depois de um sismo que destruiu quase completamente a capital do país, atingindo mortalmente centenas de milhar de pessoas e deixando outras tantas feridas, foi o mote para a partida de Marta Saraiva, de 21 anos, natural de Rubiães, e de um grupo de colegas para um hospital improvisado na fronteira entre o Haiti e a República Dominicana. “Quando chegámos não havia qualquer profissional de saúde naquele hospital. Havia sim centenas e centenas de pessoas que, dias depois do sismo, ainda não tinham recebido qualquer tratamento médico. Começámos a trabalhar desde o momento em que chegámos. Não houve meias medidas. Estava tudo por fazer e nós éramos as únicas pessoas que podiam ajudar aquela pobre gente, mesmo sendo apenas estudantes e mesmo faltando-nos aprender muita coisa. No segundo dia chegou uma equipa de cem médicos de Porto Rico e começaram então as cirurgias, que nós auxiliámos da maneira que pudemos. Meios não havia, condições muito menos. Iluminámos cirurgias com telemóveis, usámos caixas de fruta como berços para recém-nascidos ou para crianças feridas. A dor daquela gente passou também para segundo plano. Fizemos procedimentos sem anestesia e sem qualquer tipo de medicamento para aliviar a dor, mas notei que aquelas pessoas já eram imunes a isso, perante as desgraças muito maiores que se tinham abatido sobre elas”, contava-me a Marta já depois de regressar a casa. Por cá, o orgulho dos pais, Adelaide Sousa e David Saraiva, proprietários da “Farmácia Sousa” de Rubiães, era desmedido. “Apoiámos a nossa filha na sua decisão, como é evidente, porque nos pareceu que como ia sob a tutela da universidade e com a supervisão da ONU não haveria perigo. Foi mais uma grande alegria que a Marta nos deu. Ficámos muito contentes por saber que esta é uma experiência que a marcará para a vida, que mudará alguma coisa nela, e sobretudo que a fez ter ainda mais gosto naquilo que faz e que lhe deu bases para perceber o seu papel enquanto médica”.
A solidariedade dos jovens estudantes, quatro dos quais portugueses, encheu páginas de jornais e tempo de antena nas televisões. O reconhecimento foi mais que merecido, não porque o façam com esse objectivo mas porque precisamos, muitas e muitas vezes ao longo das nossas vidas, de um murro no estômago a lembrar-nos de quem somos e de qual é, afinal, o objectivo do caminho que escolhemos para as nossas vidas. Já depois do seu regresso à Republica Dominicana dizia eu à Marta que nesta experiência aprendeu, com certeza, o que muito dificilmente terá a oportunidade de aprender ao longo da sua carreira. Recordei-lhe e recordei-me, uma vez mais, o quanto valeu a pena o esforço e a persistência que teve quando partiu para uma região em tudo pobre, mas onde é realmente necessária e valorizada a sua dedicação. Onde tem a oportunidade de aprender de uma forma incomparável à minha, à nossa, em países ditos civilizados, em faculdades de medicina onde não nos faltam as condições de aprendizagem, mas onde falta aprender o sentido da nossa futura profissão, os fundamentos básicos de que teremos sempre que nos colocar a nós próprios em segundo plano e de que temos uma responsabilidade social acrescida. Valeu e continuará a valer a pena para a Marta. O nosso orgulho por ela continuará também a ser mais que muito.

[26-01-2010 - 10:28] [Maria João Cunha]

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