A propósito do prato do Reverendo Padre Eurico da Silva Pinto
Volta e meia, há por aí quem escreva insanidades, literariamente perfeitas, diga-se, como Catedrático a dissertar sobre ciência, mas ao arrepio de tudo quanto é verdade. Baseados na simples ignorância das coisas falam do que não conhecem, trazendo à liça “verdades insofismáveis”, para alicerçar convicções próprias, quando se constata não passarem de falsas sentenças e desconexos arrazoados.
O Padre é um licenciado. Estudou humanidades durante sete anos e especializou-se nas ciências teológico-filosóficas durante mais cinco, o que lhe dá vastos créditos, inclusive de respeitabilidade, como a concedida aos demais licenciados que não são mais que os outros a não ser pelas obrigações que têm de ser diferentes.
Formado para a Missão – levar a Boa-Nova a todas as gentes –, o padre não é, não tem de ser e nunca mais será um pelintra que tenha de mendigar o sustento, seu e dos que consigo vivam por dever de ofício ou laços de familiaridade, ou sustentar-se com as migalhas dos que, abstrusa e violentamente, entendem que é um indivíduo sem direitos porque “não presta à sociedade serviços relevantes para merecer apoio ou a água que bebe.
Bem o fez Salomão quando, de espada na mão, agarrou na criança para a dividir a meio e dar metade a cada uma das mulheres que regateavam a maternidade do menino. Mas não abundam, já, os Salomões capazes deste discernimento, para quando houver que dizer e decidir, dizê-lo, e decidir dizer a verdade e só a verdade.
O tempo de o Padre ter as calças remendadas nos fundilhos, fazer da batina trajo diário para encobrir essa circunstância, andar a pé ou de bicicleta a pedal para exercer o seu múnus, há muito acabou. Mas há quem disso se esqueça. Crentes, e não crentes, não podem deixar de entender isto, o que não é difícil, se cada um de nós olhar para si próprio, conformando-se, por si, com os direitos que os outros merecem, porque, se os temos, eles devem tê-los, por serem igualmente cidadãos de direitos, sejam padres, médicos, outros profissionais liberais, lavradores, artistas, trolhas, carpinteiros ou meros trabalhadores indiferenciados.
Um deus para mim e o diabo para os outros não cabem no mesmo saco, como o proveito, e a honra, se bem que aquele, comedido, não colida com esta.
A todos os que vivem em sociedade se impõem determinados critérios antes que se entre em especulações negativas sobre a verticalidade dos princípios que norteiam o semelhante, porque o rasto daninho da maledicência e da mentira, são farinha dum mesmo saco que, se não mais, deixa ficar a dúvida sobre os visados, potenciais inocentes: “É OU NÃO VERDADE?”
Vem isto a propósito das vexações de que tem sido vítima o Reverendo Pe. Eurico da Silva Pinto, pároco das paróquias da Vila e Resende.
Sem peias e verbosamente, discorre-se sobre um prato que é fruto das benesses dos fieis leigos da paróquia, aqueles “que, incorporado em Cristo, pelo Baptismo, constituídos em em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, proféctica e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo” (Vatic, II - O Povo de Deus - Cap IV, nº 30) e cujo produto, é propriedade da Igreja, desde que se ouve o “plim” da moeda a cair, cuja tem o direito de o administrar no melhor sentido e canalizá-lo para onde é necessário, mesmo que para pagar impostos de um servidor da paróquia, porque aceitou essa função, nela foi investido e tem esse direito, por os rendimentos que dela recebe não lhe sobejarem para a sua frugal subsistência. Não se pode assim falar no “nosso dinheiro” porque foi dado. Se dou, o que dou já não é meu, mas daquele a quem o dei.
Não bastando, um autómato social, que não discerne o mal do bem e que por lá andou, provavelmente no tempo de Egas Moniz, ou Fuas Roupinho, com motores a erva, a cilindrar a estrada e se arroga o direito de beliscar a personalidade do Pe. Eurico, que nada teve a ver com a coisa que trouxe à colação, mas por virtude do funeral de um familiar.
É sempre assim. Todos querem usufruir dos benefícios espirituais que a Igreja Católica prodigaliza aos seus fiéis – como acima se definem. Mas pagar para ter um ministro à disposição, mesmo que sejam os simbólicos vinte e cinco euros, anuais, isso não. Não entendem! Estão na Igreja sem estar, por não saberem o que ela é. Cada fiel deve contribuir para a sustentação do clero com um dia de trabalho que hoje se paga a mais de cinquenta euros. Alguém paga ao Padre cinquenta euros de direitos? Por certo, sim, haverá. Mas a verba julgada justa é de vinte e cinco euros, metade, por casal, ou, individualmente, por fiel. Querer pagar metade é contrariar o estabelecido e vai contra a obrigação de contribuir para que, quem vive para o Evangelho, possa comer do Evangelho. Para isso são os crentes que pagam, dentro das suas possibilidades. Dizer este autómato que se soubesse, não haver Missa era ele que enterrava, o familiar, porque o que o Padre fez também ele o fazia, faz-me lembrar a passagem das Confissões Santo Agostinho Cap.V do Liv. V, acerca de Fausto, Bispo do Maniqueísmo “Mas quem pedia a este, não sei que Maniqueo, escrever estas cousas, sem as quais se podia saber a piedade Cristã?”
Os chamados direitos paroquiais são pagos pelos fiéis leigos para a sustentação do clero. Nalgumas paróquias de Paredes de Coura não chegam para dois meses de subsistência daqueles trabalhadores da Messe que, como os outros, têm direito de comer durante os restantes dez e de andar dignamente vestido, inclusive de ter carro, porque, se S. Paulo, o Apóstolo das Gentes, vivesse no nosso tempo, seria jornalista, mas não andaria a pé.
Nossa Senhora de Fátima não tem confraria canonicamente erecta, em Resende, pelo que o produto reverte em favor da Fábrica da Igreja, a entidade que gere os dinheiros provenientes das dádivas e devoções dos fiéis.
É um direito do Pároco ser sustentado pela Paróquia onde presta o seu múnus. E esse direito impende sobre os fiéis leigos com a obrigação de contribuírem para esse sustento. Paroquiano praticante que não tenha esta linha de actuação e esta visão de solidariedade, está desfasado, vai lá porque é bonito ir ou para se mostrar, e não para fazer comunidade, isto é, comum unidade com os demais fieis, dirigidos pelo pastor que, por mandato de Cristo, governa a Paróquia.
E há muitos daqueles… “Eu cá sou católico”. Mas não vão à Missa, não têm prática sacramental, “o padre que trabalhe que eu também trabalho”, como se presidir a todas as cerimónias que, nós, crentes, séria e conscientemente julgamos necessárias para a nossa vida espiritual, não exijam esforço. Mas querem ser católicos; e ai de quem lhes negue tal direito. Um pé dentro e outro fora não vá o diabo tecê-las…
Isto é entendido por quem crê e aceitou os desafios do seu baptismo, mesmo que por meio dos padrinhos, pois que, se é adulto, e vai lá, já teve tempo de renunciar, uma vez que o Espírito não força ninguém. Não ir, é o nosso livre arbítrio, a nossa escolha, mesmo que desacertada.
Pertencerem, tais donativos, a esta ou aquela devoção dos fiéis, é irrelevante para o seu uso. O que eles jamais pertencerão é a qualquer dos fieis que lá colocou o seu donativo para avolumar o rendimento, muito menos, aqui por maioria de razão, aqueles que têm medo de apanhar com o badalo do sino na cabeça, ou, ficando no fundo da Igreja, lhes caia o coro em cima ou os que não põem os pés na Igreja para não “macularem o seu prestígio”, ao juntarem-se com quem come do prato, abusivamente e sem ordem do dono. São os “não me toques” que não se vêem ao espelho, ou, quando se vêem, para melhor se estudarem, não se vêem a si próprios mas sempre o outro, porque a imagem que o espelho lhes reflecte, tão disforme se lhes apresenta, que entendem não poder ser a sua. Eles não são assim. Provavelmente são como são. Mas o espelho não engana.
Se o Pároco tem necessidades, tem direito a ser auxiliado pelos fiéis, e estes o dever de o auxiliar.
O esquema usado pelo Pe. Eurico, e criticado em embirrentas páginas a mais, é uma forma indirecta de auxílio, sem outras sobrecargas dos paroquianos. Estes devem “contribuir para as despesas do culto, sustentação do clero,. segundo os legítimos usos e costumes e as determinações da igreja”.
Esta doutrina está inserta no Código do Direito Canónico, no artº 281º, que diz: “os clérigos quando se dedicam ao ministério eclesiástico, merecem uma remuneração condigna”.
Basta saber o que quer dizer condigno, olharmos para nós próprios, vermos quanto nos pagam e fazermos contas ao que, eventualmente, o Padre deva ter por justa remuneração, sendo um, entre os semelhantes, como acima digo, mas que muitos entendem: “viver nas melhores casas da freguesia” – inclusive na de Resende que não me consta seja um Hotel de sete estrelas ou que até permita alguém morar lá – “que compra carros topo de gama, que se banqueteia à tripa forra com amigos, e porque não dizer amigas, aquele que nada faz pelos outros e pela freguesia o que vive à custa da pobreza do seu semelhante, que passa fome para lhe dar a ele, porque o assusta com o inferno de que se quer livrar, que come o produto dos pratos das esmolas que deveriam ser para pagar foguetes e bandas de música a fim de deliciar os que vêem o mundo como festa e comezaina, alegria e salsifré” e vão a elas porque é uma forma de encontrar um “amigo” que lhe pague o copo e a fêvera de porco, porque o seu dinheiro é só deles e não é para dar de beber ou de comer aos outros, muito menos engrossar prato de santo que paga os impostos a quem não deve.
Declarar criminosa a atitude do Pe. Eurico é comparar este, ao sucateiro de Vila Nova de Gaia, que tinha que largar aos cinquenta contos por cada carro roubado que comprasse, e descoberto no seu estaleiro mesmo que o tenha recebido sem saber do furto, para não cair nas malhas da justiça.
Quem não vai à Igreja, em certo sentido, não faria lá falta. Mas se poucos são os escolhidos muitos, todos, foram os chamados, e seriam bem-vindos. Os únicos prejudicados são eles que não vão. Podem dizer que não, pois que até saem beneficiados, por não terem de pôr nada no prato da Santíssima Virgem, seja a sua invocação de Fátima ou qualquer outra, ou mesmo de um incógnito Santo. Humanamente, diríamos: pior para eles, não têm direitos. Mas as palavras de Jesus; “vim para que nenhum se perca” são a sua sorte. E não se perderão porque, como a nódoa mais negra não resiste à água límpida da corrente, também a força do mal não resistirá à força da água vivificadora que brota do Espírito de Verdade.
Mesmo que façam contas a um estipêndio por Missa celebrada, juntando-lhe a meia dúzia de funerais baptizados e casamentos dá uma “astronómica fortuna” anual que, se não fosse compensada pela Paróquia da Vila, no caso do Pe. Eurico, dava-lhe, como dizia Aquilino Ribeiro acerca dos lavradores de Coura, “para empobrecer alegremente”. Se assim fosse, empobrecer alegremente, não era mau. Eu diria que lhe dava para morrer de fome tristemente. Se são e pagam os direitos ao Pároco, conte cada um além de si, os que pagarão e veja o que ele receberá dessa fonte de financiamento.
Basta o exposto para legitimar qualquer pároco nas mesmíssimas circunstâncias, a exigir da paróquia o pagamento da segurança social, porque não é o Pe. Eurico que mete o dinheiro deste ou daquele prato no bolso, mas a Fábrica da Igreja que lho disponibiliza para o efeito. Os trocos se os há, são da mesma Fábrica ou, melhor dito, continuam PROPRIEDADE DA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, – a que pertencem o Pe. Eurico e todos os fieis leigos – E QUE TEM O PODER DE OS ADMINISTRAR COMO ENTENDER, sem que ninguém, seja quem for, crente, não crente, lavrador, conselheiro, doutor, juiz, deputado, lavrador, polícia, simples trolha ou jornalista – se permita alegar ilegalidades, atitudes criminosas, até, e acoimar de desonesto quem assim procede, no pleno uso de um direito que lhe assiste.
Crime, sim, pode haver em quem o afirme, porque é crime difamar sem razão e sem motivo.
A Igreja, longe de trazer distúrbios à Sociedade Humana é, antes, um seu coadjuvante na paz. Ignorar isto é esquecer as Misericórdias, as muitas Instituições de Solidariedade Social dirigidas quer por leigos quer por Sacerdotes. Nesta crise que vivemos, muita mais fome haveria se não houvesse Padres e leigos a trabalhar, com afinco, no silêncio, em prol do bem comum, a favor dos que precisam. Nisto fala pouco ou não fala a Comunicação Social.
Se quem não comunga do espírito da Igreja, porque lhe quer dar ordens? Que lhes fez a Igreja para a animosidade como falam dela e dos seus ministros? Se não prestam culto que têm a ver com o culto e as suas correlações? Que os anima senão a pura maledicência que emerge do seu espírito acrítico.
Raro a Igreja critica a sociedade civil e, quando o faz, fá-lo no estrito cumprimento do espírito do Evangelho, contra tudo e contra todos – ainda há pouco se viu. Deixem, pois a Igreja actuar como entende no seu campo de acção as PARÓQUIAS – QUE NADA DEVEM À SOCIEDADE CIVIL –, na prática do seu múnus, porque, ELA não incomoda os que lá não vão, destina-se aos que a integram e aceitam os seus princípios de alma e coração, e, normalmente, entende e age bem. E se no plano material entender mal, estão os Tribunais da Sociedade Civil para defender a honra dos lesados.
De certeza que o Pe. Eurico tem o apoio dos fiéis leigos de Resende, aqueles que têm fé e crêem na união hipostática do divino com o humano, na Pessoa de Jesus Cristo. Quem não é fiel leigo assim, porque não está esclarecido ou não é crente, ou, quem, sendo-o, não está com o pároco, e por certo não contribui para aquele erário, deixe-se de comentários espúrios, porque longe de lhe trazerem benefícios só o prejudicarão.
Quem não quer integrar esta IGREJA DE JESUS CRISTO, mesmo com os seus erros, PORQUE É SIMULTÂNEAMENTE HUMANA E DIVINA, para não se sentir incomodado não incomode quem não o incomoda, porque os caminhos de uns e outros raro se cruzam, ou, quando acontece, é para unir e não dividir.
[20-07-2010 - 10:04] [PAULO CARVALHO]
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