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::. Opinião



“Reivindico o meu direito próprio de pensar”

Independentemente do que possa haver para aí contra Sócrates ou a despeito dele, vamos ainda um dia ter saudades do actual Primeiro Ministro!

Desde a revolução de Abril que Portugal é governado à esquerda em matéria de Estado e prestações sociais, com benefício evidente para os mais pobres e os mais idosos, que poderão agora vir a ter pela frente um doloroso momento.
Cavaco, quando Primeiro Ministro, tinha dinheiro da Europa para manter o Estado Social e quis mantê-lo, seguindo a mesma linha do Partido Socialista no respeitante às políticas sociais. A sua direita, dotada de consciência social, não era a direita pura e dura que hoje existe em Portugal.
Esta nova direita, liderada por Passos Coelho, sabe que a actual crise é a sua oportunidade. Esta nova direita é mais jovem, mais estrangeirada, mais academicamente preparada do que a velha direita. É mais ideológica e está disposta a romper de vez com o Estado Social, ou seja, com a maior conquista dos últimos anos após o 25 de Abril.
Nascida em democracia, formada nos cursos de economia e gestão das universidades, estes futuros regentes da pátria são conservadores, crentes na virtude absoluta do mercado e do capitalismo. Acham (protegidos pela inexperiência), que a sua oportunidade para mudar de vez Portugal está a chegar.
Tencionam, no poder, construir um sistema que proteja os empreendedores, desmantele a máquina estatal, simplifique a justiça e privatize totalmente a economia, agilizando os seus instrumentos, desde os financeiros aos legais – o que significa que pretendem rever a Constituição e a legislação laboral. Não acreditam nos sindicatos e consideram que só a criação de riqueza, sem regras, possibilita a prosperidade geral.
No nosso país, estes jovens turcos, agastados por se acharem a geração sacrificada pela despesa pública – como lhes falta consciência social e uma visão real da história! – podem estar a chegar ao poder. E o seu homem vai ser Passos Coelho.
Tudo os separa de Sá Carneiro e Cavaco, tudo os separa da velha direita de Adriano Moreira e Freitas do Amaral, e nem Paulo Portas e o seu populismo defensor dos velhos e dos agricultores terão paciência para ouvir.
Mas a questão de fundo ultrapassa Portugal e tem a ver com a Europa, com a sua história política e social. A esquerda social-democrata e socialista europeia não se repensou, não se preparou e não actualizou o seu modelo de desenvolvimento. A Europa de Willy Brandt, de Mitterrand, de Olof Palme e de Mário Soares, a Europa descendente da II Guerra Mundial e das ditaduras acabou. Calcificou e entrou numa crise económica, social e financeira. A sua sucessão tecnocrata não formou brilhantes quadros políticos e contratou demasiados oportunistas e serviçais!
Não vale a pena continuar a tratar no nosso país a questão de fundo com paninhos quentes. O PS que tem vindo a abandonar o eleitorado do centro, tão importante na hora da contagem de votos, tem que perceber que não está definitivamente derrotado e que até pode vir a acolher muitos social-democratas que por pouco tempo acreditarão e se sentirão identificados com o projecto político conservador de Passos Coelho.
O PS tem de perceber que é preciso governar dinamizando a economia, explicando as dificuldades conjunturais e reduzir a despesa pública – sem deixar de combater por um pensamento social, uma ideologia, com quadros competentes e ideias, pois não pode desperdiçar aquilo que é o seu glorioso passado.
O PS tem de continuar a colocar os interesses de Portugal à frente dos interesses imediatos do partido.
Para isso e porque o “pior cego é aquele que não quer ver”, é preciso encontrar uma “saída” merecidamente digna para José Sócrates que se encontra profundamente desgastado – e que fez nos 3 primeiros anos de governação, antes da crise, um excelente mandato – e fazer eleger uma nova figura credível para disputar eleições no momento certo, quase certo após a eleição presidencial.
Seria o bastante, num país em crise e sociologicamente à esquerda, para recolocar a esperança no coração da maioria dos portugueses.

[20-07-2010 - 10:10] [MANUEL MARTINS]

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