O “Notícias de Coura” não conseguiu, em tempo útil para a penúltima edição, dar conta do seu testemunho sobre a morte do escritor José Saramago.
Mandatou-me o director deste jornal para, em nome do colectivo, aqui deixar as poucas palavras que ainda não foram ditas sobre a partida deste criador ímpar e universal o qual nos merece e amplamente justifica, uma palavra de mágoa, carinho e saudade, independentemente dos juízos de valor que cada qual de nós tenha ou faça sobre José Saramago. Aqui fica, pois, o registo do testemunho do NC, no seu todo de mulheres e homens que nele colaboram pelas mais variadas formas de intervir. Saramago é credor destas palavras, as quais são escritas sem hesitações ou louvaminhas de última hora.
Pessoalmente, porque convivi e inclusivamente trabalhei com Saramago quando ele era director-adjunto do “Diário de Notícias”, também as palavras me soçobram. Saramago era um cavalheiro, um operário incansável da escrita e um Amigo. Quando decidi entrevistá-lo pessoalmente a propósito da sua eleição para Prémio Nobel da Literatura, reservei na ilha de Lanzarote uma residencial esconsa. Saramago fez questão que ficasse na casa que partilhava com essa Mulher enorme e solidária, minha colega de profissão, a Pilar, ambos na foto. Foram dias inesquecíveis.
Eu sabia que o Zé, desde 2007, estava debilitado por razões de saúde. Ele também. Tinha, aliás, uma relação saudável e serena com a morte que agora ocorreu, o que de alguma forma se encontra vertido no seu livro “As intermitências da Morte”.
Apesar de ter lido as 46 obras que escreveu, e especialmente os 16 romances que nos deixou, recuso-me terminantemente a escrever sobre esse espólio impressionante. Sou demasiadamente pequeno e insignificante para rapar de palavreado rançoso e fazer as vezes de crítico literário, que não sou, nunca fui nem pretendo ser.
Sou, além do mais, suspeitíssimo, porque Amo o Criador e a obra criada.
Finalmente, duas palavras sobre a ignomínia do cavalheiro que faz as vezes de Presidente da República e se recusou a estar presente nas cerimónias oficiais ou privadas do funeral de Saramago. Cavaco não me surpreendeu. Foi igual a si próprio. Tal como a História da Humanidade já julgou Saramago e continuará a fazê-lo, Cavaco será julgado, e de certa forma já o foi, por esta ausência pacóvia e insultuosa, que me envergonha como cidadão e apouca esta Pátria e esta Nação quase milenares.
Foi uma vergonha mas também, felizmente, mais um excelente elemento biográfico para a história do sujeito de Boliqueime, acerca do qual a História se limitará a uma simples nota de rodapé sobre as andanças de um presidente dos portugueses que proclamava vaga e cinicamente meia dizia de balelas sobre finanças públicas.
No fundo, tudo fica bem quando acaba bem, começando desta forma que é a continuação dos capítulos de uma novela conspícua, protagonizada por um actor secundário e medíocre, que apenas me suscita pena.
E asco.
Paz eterna e Glória a José Saramago!
[20-07-2010 - 10:21] [GUILHERME PEREIRA]
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